quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Uma peça enquanto eu dormia.

À meia noite o som dos jogadores de bocha em frente à minha casa  finalmente acaba. Enfim posso pensar em  dormir tranquilo. Mas, a cabeça está a mil por hora,   voltada às   apresentações que tenho pela frente com as crianças  do  Colégio:  a garotada está bem,  porém sempre falta algum detalhe que somente  nós que montamos um espetáculo sabemos. Lembro que tinhamos que  conversar sobre nosso espetáculo teatral: "Cabral, a esquadra se deu mal". Nos encontraríamos hoje á tarde, eu não pude ir... Vejo uma luz lá adiante, saio por detrás de um labirinto de panos. Desvio de umas madeiras, avisto o Juliano na boca da coxia! Putz! Cheguei atrasado de novo!
... Entramos em cena, visualizo o barco na boca de cena. Penso, "... por quê o Beto pôs o barco aqui, no procênio, a gente vai cair na platéia". Escuto  o Juliano dizer "Vai! A peça começou...". Lembro que esqueci o mastro na coxia...Vi a bota do Cabral no Armário, no ponto de cultura,  mas esqueci de colocar na mochila e acabei não trazendo para o espetáculo - Esquenta não,  ninguém aqui sabe que o Cabral tinha bota, e ela me aperta o pé, vai assim mesmo. ..Merda, o Juliano não responde às minhas deixas, eu não consigo mais fazer aquele sotaque.... vou engatar o palhacinho mesmo e seja o que Deus Quiser!Bate uma insegurança, pois o público até agora não deu uma risada. A peça tá arrastada. O Beto lá de cima faz sinal pra gente se mexer.   Chega a cena da tempestade,  agora vamos acordar a platéia. A música que ouço não tem nada com a peça, o Beto mudou e não nos disse nada. O Juliano me dá um empurrão porque a essas alturas já não respondo às suas deixas. Estavamos improvisando há muito tempo e o Beto começou a improvisar também. Olho pra técnica e dá pra ver ele sorrindo, penso: "Será que ele está gostando ou está de sacanagem? Não entrou uma música certa! " . Mais um cutucão do Juliano agora para mostrar que uma fileira inteira da platéia saiu. O Beto vai nos matar, penso eu! Lembro que a indicação foi dele e a gente tem que melhorar salvar a peça, o texto não vem, a fala sai abafada, o público está frio, parece não entender. Eu me esforço pra sentir o balanço do barco e ele está ali parado. Procuro o Diretor na técnica e de repente ele surge por baixo de uma lona que foi estica numa espécie de corredor, ele nos apontava preocupado, dizendo pra gente não passar ali pra não cair no "Buraco". Eu penso  "agora a coisa desandou, mesmo! Por que fui esquecer meu figurino. Eu tenho que pegar o mapa... merda, cadê o mapa! Eu também não trouxe, ficou no armario lá de casa!" Ouço o Juliano gritar "Terra a vista!". "A luneta! Me de cá esta luneta"! Recebo das mãos de alguém um monte de plásticos moduláveis que tenho que disfarçar para que aquilo pareça uma luneta. Mais gente sai da platéia. Meu coração vai a mil. Eu penso, porque a gente tem  que passar por isso? Essa peça não acaba nunca mais!  Envergonhado, fecho os olhos, ninguém aplaude. Abro os olhos, olho pro relógio... são sete horas! Preciso levantar pois tenho ensaio com as crianças do Educar. Graças a Deus.

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